Latentes memórias de um errante
Leah de Paula
O conteúdo desta obra é inteiramente
fictício, os personagens e locais descritos aqui, são frutos da imaginação, ou
são usados de modo fictício, de responsabilidade exclusiva do autor.
Dedico ao
meu eterno Fernando.
“Por mais que o tempo venha com seu
véu negro roubar o brilho de minhas memórias, do teu rosto nunca me esquecerei”.
Muitas primaveras se foram, tudo
o que me restaram foram apenas retratos vazios, encobertos pela poeira,
deixados no esquecimento, dentro de uma caixa na gaveta do gabinete. Sinto-me
vazia por dentro, algo que talvez tenha me esquecido, ou que apenas nunca tenha
encontrado nessa minha jornada, não sei bem ao certo, mas ao passar dos anos
minha memória me falha às vezes. De minha vida nada me restou além da poeira
nesses retratos, todos se foram, meus familiares, aqueles por quem um dia tive
amor, aqueles que um dia eu pude chamar de irmãos, meus companheiros de vida,
tudo o que eu tinha se desmoronou bem diante dos meus olhos. Como uma nuvem
negra que consome tudo ao meu redor, um redemoinho impiedoso e destruidor que
engole edifícios reduzindo-os a nada além de destroços e angustias. Tudo o que
sou agora, é o que eu ponho a boca, meus olhos ressaltam o desejo de calor,
esse sou eu agora, um corvo negro na noite, movo-me apenas pelo instinto,
trazendo a morte ao que toco. Nada mais importa além da sede, ela que me move
através do caos da noite, dissimulando minhas dores.
Tenho em minha memória manchada
de sangue, rostos já quase esquecidos, vozes estridentes ecoando em minha
mente, ideologias que se tornaram inúteis, antigos deuses ao quais já não me
curvo mais; falsas verdades que um dia rasgaram minha mente, isso já não me tem
importância. Hoje a única força que move o meu corpo, fazendo-me esquecer de
meu castelo desmoronado, é a constante sede que me toma por inteira. Vago a
noite, a única luz capaz de tocar minha face é a da Lua, tenho por ela certa
admiração, porque durante anos e anos no final das contas ela foi à única
presença constante que me restou, de uma vivência de infinitas perdas e
lástimas.
Vejo aqui entre os meus retratos
um rosto borrado, eu o reconheço, mas não me lembro ao certo sua graça, o que
ele estaria fazendo no jardim da antiga residência do Dr. Jones? Seria um de
seus pacientes problemáticos? E o que ele representa para mim, pois quando vi
seu rosto algo dentro de mim se agitou, como tambores na véspera do sabbath[1],
mas já chega, essa sensação estranha faz com que algo comiche por dentro dos
meus olhos querendo saltar para fora. Mas de que me adianta lamentar pelo o que
as chamas já tocaram, serei franca, tudo o que as chamas tocam nem que por
anjos seja tocado novamente, seria capaz de voltar a sua forma original.
“O que se torna cinzas nunca poderá reconstituir-se”
Hoje é o ultimo dia de carne
vale[2]
haverá uma grande festa na cidade e muitos jovens embriagados, cobertos de
pecado e cegos de fornicação, sendo assim me será oportuno fazer desaparecer
alguém que mal quer ser visto portando seus adornos em publico, se não nu em
algum quarto de pensão, ninguém sentira sua ausência. Guardo os antigos retratos em tons sépia dentro
da caixa e retorno-a para dentro da gaveta do gabinete, assim fecho-a; levanto-me
da poltrona, sigo rumo ao quarto, abro o guarda-roupas e retiro um elegante
vestido carmesim, com uma exaltação interior tremenda pego entre minhas antigas
jóias uma mascara negra, lembrança de um falecido amigo de Amparo. Sigo rumo ao
centro da cidade onde haverá a mais tumultuosa movimentação de jovens, me
parece tentador, andar por entre tantos nobres jovens com os hormônios a flor
da pele, nessa época é fácil raptá-los para os becos sem o risco de ser
interrompida pelos guardas de rua, que estarão bem ocupados com suas
prostitutas baratas. Sinto cheiro de almíscar e absinto pelo ar, é irônico
sentir essa empolgação, deveras que anteriormente a este pandemônio isso não me
atraia, pelo contrario eu repudiava, a celebração aos carnis valles[3],
e ainda isso me causa certo asco, mas faz parte da trama me adaptar a isso, me
rendendo dias sem dor física e confusão mental.
O calor do sagrado elixir
descendo pela minha garganta é como um anestésico para minhas aflições!
Vejo um jovem elegante com uma
mascara de cor rubi caminhando para longe da movimentação, com uma das mãos ele
retira quase que automaticamente algo do bolso de seu casaco e põe a boca, e
com a outra mão ele retira do bolso de sua calça um objeto pequeno e o manuseia
rumo à extremidade do que pôs a boca e nele ascende uma fagulha. Sorrateiramente
caminho ao seu encontro, e o que me chama atenção é a estranheza em que os seus
olhos me são semelhantes, ao notar que me aproximo ele me sorri compreensivamente
e retira com uma das mãos o objeto da boca, e logo em seguida solta pelas
narinas uma fumaça escura, então retira sua mascara. A pele de seu rosto é
clara como a da polpa de uma maça verde, seus olhos eram negros como a noite,
entretanto irradiavam um certo brilho ao refletir da lua, sua boca era bem
pequena, apesar de seu sorriso ser largo.
- Boa noite! – Diz o jovem
elevando a mão com o cigarro a boca.
Sua voz apesar de calma e doce me
soava como um insulto, eu estava transida de fome, há dias permanecia afundada
em meu leito na encolha com minha melancolia, esperando a oportunidade certa de
me alimentar para não me expor. Ainda que exaltada pela sede buscava me conter,
permanecendo a dois passos e meio de distância a ele e ainda sem retirar a mascara,
me aproximo buscando seduzi-lo.
- Boa noite! – Respondo com a voz
baixa - Daria-me a honra de sua companhia cavalheiro?
Sem movimentar seus profundos e
vazios olhos, apenas ergue sua mão rumo a minha e diz:
- Claro que sim minha bela, seria
uma honra! Mas antes gostaria de saber a sua graça, e... se... – ele retira o
cigarro da boca e lança-o ao chão pisando sobre ele para apagar sua brasa - Gostaria
de caminhar um pouco, quem sabe ir para um lugar menos agitado?
Meu corpo treme, é quase que
impossível suportar o impulso dentro de mim de lançar sobre aquele pálido
pescoço os meus demônios, com uma das mãos retiro a mascara enquanto com a
outra ajeito o meu cabelo rubro.
- Karitha... Estarei contigo onde
seus passos me levarem meu rapaz... - Respondo sorrindo falsamente.
Ergo minha mão rumo a dele e a seguro
com sutileza, ele é recíproco. Começa a caminhar guiando-me rumo ao oeste da
Av. Antonieta, há um beco escuro à frente onde pessoas costumam freqüentar
quando querem fazer coisas das quais não querem ser pegas fazendo. Ele acaricia
minha mão, sinto uma sensação estranha no estomago, que se iniciou no momento
em que senti o seu toque frio sobre minha pele, é como se eu já o conhecesse.
- Daria-me a honra de sua graça,
já que estou a caminhar com você? – Pergunto a ele com eufemismo.
Ele segura com firmeza minha mão,
como se quisesse do fundo de sua alma esmagá-la, e com um gesto afoito lança o
meu corpo à frente, adentrando no beco e colidindo contra uma parede porosa.
Como o vento rapidamente ele se aproxima, ergue uma das mãos e segura meu rosto
firmemente e ainda que friamente ele sorri, olha no fundo dos meus olhos
apavorados e diz:
- Becker! – Movendo meu rosto ele
se aproxima de meu colo - Seu cheiro é sublime! Qual seria o seu gosto? –
Indaga friamente, aproximando seus lábios dos meus ouvidos como se fosse um Lupino[4]
prestes a me devorar.
Por um instante me senti
impotente e assustada não esperava tal reação, por mais que inutilmente tentava
confrontá-lo, não era capaz de movê-lo a um palmo.
Não tenho força suficiente...
Então revelei o demônio que era, e tentei incontáveis
vezes apanhá-lo com os dentes, mas ele continuou com seu corpo imóvel,
segurando rigidamente minha mandíbula.
Tal força não é humana...
Aproximando seus lábios novamente de minha
orelha ele sussurra:
- Ah... Que pena... tão jovem
minha sombria dama... – Ele se afasta de minha orelha e se aproxima de meus
lábios quase que a tocá-los em provocação - Vê que agora não é tão onipotente
assim?
Tento mover meus lábios, mas som
nenhum se sobressai , estou afônica. Ele se afasta de meus lábios e ainda
segurando-me pela mandíbula fita-me com seus negros olhos brilhantes.
-Adorei mesmo o teu cheiro Caitiff[5],
mas não posso deixar você caminhando por ai tão jovem, nos sujeitando a olhares
desnecessários - Diz ele retirando a mão de minha mandíbula e deslizando-a
sobre o meu pescoço até a altura de meus seios.
- O que é você? – Retomo a voz
mesmo que ainda em estado de pânico.
Ele ainda com aquele sorriso
inicial estampado na face, que de inicio era até meio sedutor e reconfortante,
mas que se tornara irritante diz:
- Eu sou um ancião! - Gargalhando com descaso - Pobre neófito[6]
nem se deu conta do que esta havendo!
Me encontro estática sem reação, mas
não há o que fazer, talvez seja essa à hora certa de repousar mesmo. Abraçar a
morte que me foi adiada.
- Faça o que quiser comigo... Não
me importo! – Digo, olhando-o no fundo dos seus negros olhos.
Ele me solta rapidamente e
caminha rumo à saída do beco e de costas me diz vagamente:
- Vamos senhorita, posso lhe
ensinar os prazeres de caminhar pela noite e ...
Com todas as forças que eu tinha joguei-o
contra a parede e corri como o vento sopra sob as colinas, corri entre a
multidão rumo ao esquecimento daquela situação.
O que ele quer de mim, não sei
como me portar diante de tal situação, mas não tenho o que perder nem ao que me
prender e não será agora que arrumarei amarras.
Havia uma multidão de jovens
assistindo a uma espécie de espetáculo em frente ao palco principal,
rapidamente atravessei a av. Cosme Dias. Já não sentia sua presença, ele havia
desaparecido completamente.
- Será que realmente estive com ele, ou estaria enlouquecendo? Apenas
um devaneio... apenas...
Eis que de repente surge vindo pela
minha direita um vulto negro jogando-me sob o chão.
- Não lhe dei escolha, virá
comigo! – Diz Becker autoritariamente
Puxando-me pelo braço ele me
arrasta como um boneco sobre os ladrilhos do chão, rumo a uma antiga pensão,
quando ele se aproxima a porta se abre quase que subitamente e surge um homem
alto de ar grácil, com um rosto triste, aparentemente desapontado.
- A que devo a honra de sua
companhia tão cedo? – Diz o homem confuso.
Becker lança-me ao chão
adentrando a porta da casa como se eu fosse um saco de batatas podres, em
seguida fecha a porta com o ferrolho.
- Acalme-se Fernan, trouxe-nos um
neófito. Cuide dela enquanto busco o que me pediu.
O homem olhando-me confusamente,
apenas acena que sim com a cabeça consentindo, enquanto Becker retira o ferrolho
da porta e sai. Então ele se ajoelha em minha direção com um olhar acolhedor.
- Desculpe-me pelos maus modos de
Becker, ele é um bom senhor[7],
mas não aceita não como resposta – Diz o homem com um sorriso tímido - Deixei-me
cuidar dos seus ferimentos, logo ele nos trará algo bem suculento, espero que
esteja com apetite!
Estava amedrontada, e por mais
que seu olhar demonstrasse bondade, ele não era uma pessoa comum, aquela
aparência apenas encobria seu demônio. Sua maneira de olhar fixamente me
transmitia à impressão que essa não era a primeira vez que vi aqueles olhos cor
de jade, era como se pudessem ver através de mim.
- Fique tranquila, esta entre
amigos, deixe-me ajudá-la? –Diz o homem erguendo sua mão lentamente em minha
direção.
Seguro em sua mão e delicadamente
ele me ajuda a levantar do chão, com um olhar doce me conduz a sala de estar;
onde havia uma poltrona encoberta de poeira, um carpete de tom acinzentado, uma
estante repleta de livros velhos, um sofá encostado contra uma parede repleta
de quadros de outras épocas. Ele me guia até o sofá sem soltar minha mão e faz
sinal com a cabeça para que eu me sente.
- Não tenha medo irei curar os
seus ferimentos... – Diz ele mordendo a ponta de seus dedos e os aproximando de
meus ombros.
Dos seus dedos escorria sangue
sobre minha pele, cicatrizando-a, como se nunca houvera ferimento algum, fiquei
abismada, não sabia que poderia me regenerar assim sem ingerir.
- Como alguém como você pode conviver
com um monstro como Becker? – Digo com receio.
O olhar doce desaparece e seu
rosto se torna triste novamente, movendo sua mão rumo aos meus joelhos ele diz:
- Antes de conhecer Becker eu era
como um verme, rastejando pelas ruelas escuras da cidade de São Carlo, buscando
auto-aceitação, eu era como o lixo esquecido sob os bancos na linha do trem.
Ele me ensinou a viver, ou seja lá o que seja isso, ainda estamos vivendo
certo? De certo modo, não escolhi ser assim, mas recebi o abraço[8],
meu irmão era um neófito na época e cedeu a incabível sede me consumindo como
uma garrafa de vinho tinto. Quando se deu conta do que havia feito cortou seu
pulso e me envenenou com essa maldição, mas mal sabia ele que demoraria algum
tempo para o meu renascimento, então o pensou ser tarde demais, sendo assim me
jogou no rio inconsciente, buscando se livrar de seu deslize. Quando acordei
estava à margem encoberto de lama e musgo corroído até os ossos pelo frio, confuso
e sozinho, não sabia onde estava e a quem recorrer. Virei um vadio sem ter para
onde ir, vivia por entre os bordeis e botecos, arrastando prostitutas para os becos,
atacava mendigos e andarilhos pelas ruas enquanto dormiam, buscando cessar
minha incabível fome. Não tinha bens, não tinha gloria, não tinha nada, vivia clandestinamente.
Comovida olho-o no fundo dos
olhos e digo:
- Não sei quem foi o demônio que
me amaldiçoou, apenas recordo-me de estar deitada sob minha cama logo após o
jantar a espera de meu esposo, quando algo se pôs sob meu corpo como se
esmagasse minha alma, foi então que perdi a consciência. Ao retomar os sentidos,
permaneci agonizante por horas sob a cama sem poder me mover. Quando consegui
me levantar corri rumo à sala de jantar, mas me deparei com meu esposo estirado
na escada todo ensangüentado. Havia sangue por todos os lados, seu corpo fora
estraçalhado como um ataque de Bacantes[9], suas tripas apodreciam sob o tapete do
corredor e minha roupa estava coberta de sangue, mas não havia ferimentos em
meu corpo. Durante anos revirei minha memória em busca de um significado para
aquilo, seria eu sua assassina? Deixei tudo para trás, me tornei cinzas no
tempo, sendo carregada pelo vento através dos anos. Como aquilo era possível
indaguei-me, estaria eu vivendo um pesadelo?
Ele fitava-me como se olhasse
para uma jóia na vitrine de uma loja de importados, como se cobiçasse tocar-me
além dos joelhos e no fundo eu regozijava sentir seu toque.
- Então perdeu tudo? – Indaga ele
com voz branda.
- Sim, a única coisa que me move
é a sede. – Respondo-lhe
Ele segura firmemente minha mão compadecido
e exalta a voz:
- No começo a dor é intensa, mas
com o tempo se torna controlável.
Becker chega desapercebido e diz:
-Nossa, fiquei comovido!
Com um simples gesto lança ao
chão uma jovem de cabelos longos e dourados desacordada, Fernan não se move
continua brando, a segurar minha mão, adentrando em minha alma encarando-me com
seus olhos de jade. Algo em minhas entranhas parece se mover, reagindo
estranhamente aquele momento, como um despertar de um enfermo em estado
terminal, com as mãos tremulas e os lábios descorados mal consigo me mexer,
como se estivesse em transe observando-o sem reação. Becker encarando Fernan
diz com ar de gozo em sua voz:
- Fernan leve nossa convidada até
o banquete – Diz em tom de gozo aproximando-se da jovem desacordada.
Arrastou rudemente a jovem pelo braço
direito, puxando seu corpo para tras,
ajoelhando-a ele segura seus dois braços, e com um solavanco agressivo
endireita seu corpo enquanto que em um gesto inconsciente a cabeça da
desafortunada jovem se inclina para baixo. Becker apoia seu joelho direito nas
costa da jovem, e com uma das mãos puxa seus cabelos com agressividade para
trás deixando a mostra o seu pálido pescoço. A jovem atordoada retoma a
consciência e começa a gritar em desespero.
- Não se acanhem, venham! – Diz
Becker tapando a boca da jovem com uma das mãos, enquanto com a outra move o
delicado pescoço em sua direção, apresentando o seu demônio ele crava os seus
dentes.
Fernan sem soltar minha mão levanta-se.
- Cairemos ébrios, como clérigos
corrompidos pelo desejo de fazer-se enlouquecer! – Diz Fernan empolgado
aproximando seu corpo do meu.
Isso me soou como o apito na
faixa de largada para prosseguir, perdi o controle, era como se o sangue me
controlasse, meu corpo se contorcia extasiado, minha face formigava como se
houvesse fumado ópio, sentia minhas veias dilatando-se. Fernan olhava-me
maravilhado com os lábios mergulhados no sangue que ainda corria quente pelas
pernas da jovem. Algo parece estar errado ele para de beber, ergue sua cabeça
como se quisesse me dizer algo, movimenta seus lábios mudos, não ouço som algum
vindo deles, além do sublime som do coração da pobre jovem sendo suavemente
desacelerado.
- Já chega Karitha – diz uma voz
serena ao longe
Não consigo parar, é como se eu
fosse uma rosa sendo levada pela correnteza rumo à queda da cachoeira.
Um pouco mais, só mais um pouco.
De repente sinto meu corpo ser lançado
bruscamente ao chão, fecho os olhos e ao reabrir-los como num despertar, vejo
Becker com seu pé direito fixado no meu peito, então ergue sua destra rumo ao
meu rosto banhado em sangue e com um rápido movimento sinto suas negras unhas
rasgarem a pele do meu rosto.
- Uma gota tende a ser a ultima
gota, uma gota a trás e a leva - Diz Becker levando a mão suja de sangue à boca
– Tende saber à hora de parar minha criança.
Aquilo era como um sonho lúcido,
não havia dor, não havia medo, não havia solidão, tudo o que existia era o
alucinante cheiro do sangue suave e doce, escorrendo pelo meu rosto, mascarando
a verdadeira frieza de meus sentimentos, corrompendo impulsivamente minha
humanidade quase extinta.
[2] É um período de festas regidas pelo ano lunar no cristianismo da Idade Média. O período do carnaval era marcado pelo "adeus à carne" ou do latim "carne vale" dando origem ao termo "carnaval".
[3] Período de festas, relacionada com a idéia de deleite dos prazeres da carne marcado pela expressão "carnis valles", que, acabou por formar a palavra "carnaval", sendo que "carnis" em latim significa carne e "valles" significa prazeres.
[4] Lobisomem
[5] Um vampiro sem clã, termo usado de forma pejorativa. Ser um desgarrado, não é uma virtude visto do ponto de vista dos que constituem uma prole (família).
[6] Aquele que acabou de nascer; novato.
[7] Líder de uma prole; grupo; clã.
[9] Na mitologia eram mencionadas como jovens que tomadas pela loucura mística, estraçalhavam outros seres em nome de seu Deus, Baco.
Já era noite na velha pensão com
odor de mofo e morte, acordei como um recém nascido abrindo os olhos pela
primeira vez, o dia passara rapidamente, mal senti o calor queimando os meus
ossos durante o dia que perdera. Ainda havia sangue nas minhas roupas devido a
noite anterior, o cheiro era horrível, uma mistura de ferrugem com ovo podre.
Meu corpo repousara sobre o sofá acinzentado
de poeira, olhei ao meu redor, no canto da porta havia um vazo de porcelana com
galhos mortos por falta de água, estremeci quando vi pelo canto dos meus olhos
que alguém me observava da poltrona a minha esquerda.
-Vejo que não dormia há muito tempo,
eim? – diz Becker com um olhar indiferente.
- Quando dormi? Eu não me lembro...
– Falo confusamente ao tentar me levantar - Ahh minha cabeça dói! – Volto a me
sentar.
Becker estica as pernas sobre o
encosto da poltrona, arregala bem os olhos e tamborilando os dedos sobre seu
rosto diz:
- Hum... Comeu e dormiu como uma
preguiçosa, nem sequer se levantou para lavar os pratos - Fala ironicamente.
- Ela acordou, pude ouvir vocês do
jardim – Diz Fernan adentrando a sala.
- Sim, estava dizendo a ela como é
preguiçosa – Diz Becker ajeitando-se na poltrona.
- Desculpem-me, mas tenho que ir
embora – Digo levantando do sofá e arrumando meu vestido coberto de sangue
seco.
- Ir para onde? Uma jovem de
negócios você, quem sabe um emprego? Um namorado, ou até uma família estão a
sua espera, devem estar preocupados por se ausentar, não é mesmo? – Diz Becker
com ar de deboche.
- Pare de incomodá-la Becker, ela
ainda não aceitou a idéia de sermos sua nova família a partir de agora. – Diz
Fernan cerrando os pulsos com determinação.
- Família? – questiono perplexa.
Os dois se entreolhavam quase que
propositalmente intranqüilos, como se eu fosse um bebê que necessitava ser
trocado, pois o fedor de minhas fezes dominava o ambiente.
- Sim, minha cara, agora deixará de
ser uma Caitiff, para fazer parte de nossa prole. Isso é um convite, não pense
duas vezes para aceitar, certo?
- Mas... Mas... – Sem saber o que
dizer tento questionar, mas não há palavras a se dizer, parecia estar feito.
- Seja bem vinda Karitha, sabíamos
que aceitaria! – Diz Fernan empolgado como uma criança ao receber um brinquedo.
Becker corre os olhos pelo meu corpo
e parece feliz, mas logo tenta afastar a feição de felicidade de seu rosto,
como quem perde um trem no ponto de partida. Ele era como um cristal rústico
que precisava ser lapidado, estava nítido que fora uma boa pessoa antes de se
tornar um demônio, mas ele esconde sua humanidade por trás do demônio quase ao
ponto de perde-la para ele.
Acho que deixou sua chama se apagar, perdendo
assim sua essência pelo caminho. Quando se olha no fundo dos olhos negros dele
dá para notar que algo lhe foi arrancado tragicamente. Pobre Becker, assim como
eu foi-lhe roubado a esperança.
- Não tivemos um começo muito
agradável, não é Karitha? – Diz Becker olhando-me com doçura.
- Aparentemente não tivemos um
começo, fui raptada por você se lembra? – Digo olhando-o com desprezo.
-Ah não seja dramática! Se não fosse
eu ter figurativamente raptado vossa magnífica e formosa jovem, bancando uma de
Casa Nova com seu decote e suas pernas a mostra, estaria apodrecendo em algum
beco por ai. – Diz ironicamente Becker tentando enxergar além do meu vestido.
-Como assim apodrecendo? – Indaga
Fernan com um olhar preocupado.
- Ouvi mais relatos enquanto vocês
dormiam de que há mais Primakkis[10]
degenerados caminhando pela cidade, esta a maior bagunça em Petriv[11].
- Não estou entendendo nada –
Queixo-me com os olhos atentos.
- Existe um conselho de vampiros em Petriv
que se encontra na cidade de Berzoth, logo após as colinas, mas o local é
conhecido apenas pelos anciãos do conselho para evitar ataques de Auternãs[12].
Pensou mesmo que estava sozinha nas trevas minha querida? – Diz Fernan se
aproximando de mim.
- Bom estamos em guerra constante
por território, dois membros da nossa prole foram recentemente atacados por
alguns Lacaios[13]
de Frederick, um Auternãn ancião que foi expulso do conselho de Petriv por
suspeita de canibalismo. Ele é um demônio bem apessoado de lábia, pode
enganá-la facilmente, fazendo-a de mascote para simples entretenimento de sua
prole – Diz Becker com os olhos fixados nos meus demonstrando impaciência.
- Irônico como em um momento estou
morta, e no outro me torno uma assassina, logo depois estou sozinha no mundo, e
pouco depois já estou em uma família de assassinos que são perseguidos por
outros assassinos. Isso é informação demais, não acham? – Digo sorrindo olhando
para os dois ironicamente.
Fernan se aproxima de mim,
permanecendo ao meu lado ele ergue sua mão em direção ao meu ombro direito em
sinal de acolhimento, pousa sobre ele seus dedos frios como a água do fundo de
um poço recém colhida.
- Não seja simplória, não temos
motivos para nos aproveitarmos de você, ou até enganarmos você. Mesmo que seja
difícil de acreditar, para sobrevivermos precisamos de um motivo para caminhar,
seja ele proteger alguém ou amá-lo, pois sem esse motivo nos tornamos apenas
feras tocadas pela imortalidade. – Diz Fernan, olhando-me compreensivamente.
Becker parece preocupado, andando de
um lado para o outro, com passos decididos e um pisar pesado, ele segue rumo ao
corredor a direita da sala e se encosta na parede.
- O que farão? – Indago preocupada.
- Nós não temos a eternidade pela
frente, nosso tempo é contado em respirações! Seria um prazer de minha parte
permanecer transparente diante desse conflito, eis que não faço parte do
conselho e quanto mais longe nos mantivermos de ambos os lados, talvez vivamos
mais algumas noites. – Diz Becker irritado.
- Meu senhor, a desgraça corre como
trovão, logo esse mal nos afrontará, mais cedo ou mais tarde, temo em dizer que
logo! – Diz Fernan retirando a mão do meu ombro e seguindo rumo a Becker – Nos
escondermos não bastará para sobrevivermos!
Becker está nervoso, pois tem de
tomar uma posição em meio ao caos emergente. Ele se desencosta da parede e
caminha decididamente pelo corredor, Fernan o acompanha tentando acalmá-lo. Os
galhos farfalhavam lá fora, pareciam conversar com a chuva que se iniciava em
pequenas gotas, o odor das flores aflorava-se e o calor causado pelo dia
dissipava-se dos velhos tijolos de barro que cercavam a casa. Ouço algo se
movendo com violência, como se fosse arrastado sobre o piso ao meu parecer de
madeira logo acima de mim, corro através do corredor e a minha frente está uma
rústica escada de madeira deteriorada pelo tempo, ao subi-la rapidamente ela
range, como se murmurasse uma cantiga fúnebre a cada toque dos meus pés sobre
ela.
Há um corredor com uma fraca
iluminação, é como se fosse me engolir para dentro de si, mal posso ver seu
fim, apenas sigo o ruído que se agrava fortemente. Deparo-me com uma rústica
porta de madeira esculpida com perfeição, posso ver sombras se movendo através
de sua fresta, ouço vozes exaltadas e os móveis sendo arrastados sobre o piso
de madeira. Caminho rumo à porta, estou prestes a empurrá-la, eis que ela se
fecha diante de mim, e o ruído se intensifica lá dentro.
- Fernan! – Grito apavorada – O que
esta havendo?
Não obtenho resposta e os ruídos se
intensificam mais, ouço o som de vidro se quebrando e algo sendo arremessado
pela janela caindo a esmo sobre o solo úmido do jardim. A porta se abre à minha
frente, adentro no que me parece ser um quarto, não há luz, porém o reflexo da
lua se erradia através da janela quebrada, iluminando seu interior em pequenos
raios, não deixando o cômodo em completo breu.
O ar estava parado e era como se
irrigasse chumbo em meus pulmões, aproximo-me da janela e posso ver algo se
movimentando por de trás dos arbustos do jardim dos fundos da pensão.
Quem esta se
escondendo? O que ouve?
Retiro-me do cômodo e sigo o
corredor rapidamente, desço as escadas, passando pela sala, corro pela porta da
frente dando a volta pela lateral do jardim, olho ao meu redor e nada vejo além
de rastros de sangue pelo gramado lamacento. Eis que ouço um gemido vindo de
trás de uma árvore torta logo a minha esquerda, próximo aos arbustos que vi da
janela do segundo piso, quando me aproximo vejo Fernan estirado.
Ele não se move... Oh céus, estaria morto?
Ao me aproximar do corpo dele, sinto
algo pairando sobre mim, como um presságio.
Algo esta se aproximando e mesmo que distante
posso senti-lo me esmagando profundamente.
Ouço
ao longe quase que distante o ruído de cascos galopantes se fundindo com o som
do vento, continuo vagarosamente seguindo em direção ao corpo. De repente sinto
um frio na espinha, algo envolve meu corpo como uma odiosa teia de aranha.
Estou cega!
É como se uma nevoa se lançasse a
minha volta, e me contivesse estática.
- Becker contenha seu senso de humor
– Digo começando a ficar atordoada – Solte-me seja lá o que for isso...
S...O...L...T...
Minha voz se foi, e meu corpo se enrijeceu, permaneço
como uma gárgula translúcida e vazia, desaparecendo dentro de mim mesma. Posso
sentir o frio me abraçando com doçura e os respingos de chuva escorrendo sobre
minha face, não há som algum, é como se a treva mastigasse meu corpo para
dentro de seu eco sombrio, me tornando mórbida como um livro empoeirado na
estante de um seminarista.
Estou morta? Este seria o purgatório, vazio e
introspectivo? Meu fim, finalmente, um descanso...
- Rebecka, capturei um obscuro! –
Diz uma voz grave próxima a mim.
Ouço um coração rítmico se
aproximando mansamente da treva que me adornava, surge um rosto atravessando as
cortinas de penumbra a minha frente, as maças de seu rosto irradiavam vida e
juventude, seus olhos brancos me pareciam cegos, mas fitavam-me como navalhas
atravessando minha carne, seus cabelos louros brilhavam intensamente e me
transtornavam as vistas como raios de sol.
- Se queres descanso posso lhe
proporcionar, mas isso se for covarde, o que creio que não és. Se és forte como
imagino, fará da força tua sabedoria, e a sabedoria tua arma. – A voz rasgava
meus tímpanos como um sino, provocando meu corpo a despertar seus músculos
enrijecidos.
Esta é a face de um anjo, esta seria sua voz? Castigo...
Castigo... Tudo isso é apenas um sonho, logo acordarei e olharei nos lindos
olhos castanhos de Rick repousando em nossa cama... Somente um sonho...
Somente...
- Dissipasse! – Diz a voz com
domínio.
- Acalme-se criança! – Dentro de
minha cabeça ouço Becker a me falar em um zumbido.
A névoa se desfaz, meus olhos ardem,
como se estivesse fitando o sol, e meu corpo queima, a dor toma meus sentidos,
olho a minha volta buscando por Fernan, e vejo duas jovens bem próximas de mim
e um homem apalpando os bolsos de Fernan buscando algo.
- Não esta aqui! – Diz o homem desapontado.
- Eles devem ter o levado – Diz uma
das jovens.
A outra jovem sorri observando-me, e
ergue sua mão compadecida em minha direção.
- Levante-se minha querida, não lhe
faremos mal – Diz o rosto que me despertou.
Seguro em sua mão como apoio e me levanto,
solto sua mão e olho em direção ao corpo de Fernan que continua estirado na
lama sem se mover, caminho rapidamente até seu corpo.
- Fernan! Você não vai fazer isso
comigo! – Erguendo a mão sob seu rosto acaricio-o, aproximo meu ouvido de sua
boca e não ouso sua respiração.
- Acalme-se! – Diz o jovem que
apalpava os bolsos de Fernan – Ele apenas esta desacordado, não foi mordido.
- Rebecka! – Diz Becker saltando
eufórico de uma árvore logo acima de minha cabeça, sob o chão lamacento
elevando alguns respingos de lama sob meu rosto – Druniff[14]
já se passaram algumas décadas não é?
- Claro! E você continua se
escondendo como um lagarto em meio às folhas – Diz a jovem loira dos olhos
brancos que me despertara.
- Hum... Onde esta Moira? – Indaga o
jovem a Becker.
- Bom... Ela sonhava em voar, até
que um dia voou tão alto e caiu... – Fala calmamente Becker coçando o queixo
olhando o corpo de Fernan estirado.
- Já era de se esperar essa reação,
vocês são parasitas, se infiltrando em suas vitimas e depois de matá-las
abandonam o corpo sem nenhuma compaixão. – Diz o jovem enraivecido com o
descaso de Becker.
- O que você acha que eu faria,
ajoelharia e imploraria para ela não ir rumo ao fogo como uma infeliz mariposa?
Ela escolheu isso, não sou ninguém para lhe impedir ou dar ordens. – Diz Becker
se aproximando do corpo de Fernan.
Ele se ajoelha ao lado de Fernan,
apóia o polegar da mão esquerda no seu pulso direito e com uma leve pressão ele
faz um furo, eleva o braço sob a boca de Fernan e fecha suavemente a mão,
fazendo com que caia alguns respingos de sangue sob os lábios e o rosto de
Fernan.
- Vamos meu caro amigo,
recomponha-se! – Diz Becker aproximando o pulso dos lábios de Fernan, que ao
abrir os olhos retira o pulso de sua boca com uma das mãos enquanto com a outra
limpa os lábios.
- Carmin! – Diz Fernan com um olhar
contente ao ver a outra jovem ao lado de Rebecka.
Fernan ergue o rosto em direção a
Becker que compadecido se levanta, estendendo o braço como apoio para Fernan se
levantar, apalpando os bolsos ele olha com desprezo para o jovem Druniff.
- Se imagina que eu peguei, esta
errado, cheguei tarde demais. – Diz o jovem fatigado.
- Até quando irei perecer aqui
com meu vazio eminente de desconhecimento sobre o assunto em questão? – Com um
olhar soturno e atordoado digo me afastando.
- Meu nome é Arman – Diz o
jovem olhando-me ironicamente – E o que você desconhece, é melhor continuar a
desconhecer, em seu lugar eu fugiria, antes que se afunde mais na lama.
Eu queria gritar, me rasgar por
dentro, desaparecer em meio a todo aquele caos. Tantas vozes, mas nenhuma
resposta aos meus gritos... Seria eu apenas a sombra de mim mesma que nada
podia fazer para ser sentida?
-Minha querida não se agite por
tão pouco, acalme-se logo esclarecerei o que ouve... – Diz Fernan passando as
mãos em suas roupas se livrando das folhas do chão que se fixaram eu seu
casaco.
- Fernan, pensamos que
estivesse morto por anos, por que não deu noticias seu bastardo! – Diz Carmim
com os olhos brilhando em lágrimas e com um tom de voz exaltado.
Ele se aproxima de Carmim eleva
uma das mãos em seu rosto pálido enxugando suas lágrimas, retira seus cabelos
negros do rosto, ajeitando-os atrás das orelhas e automaticamente ela o abraça
fortemente. Becker levantando as sobrancelhas caminha até mim, coloca sua mão
em minha cintura puxando meu corpo junto ao seu.
- Hum... Vamos logo, chega de
tanto afeto, começa a me causar asco! – Diz Becker satiricamente – Logo
sentirão nosso cheiro e estaremos mortos.
- Ah, não me diga! Mortos? – Diz Rebecka com um
expressão de riso – Acho que já estão...Ou eu
estou enganada?
Retiro a mão de Becker de minha
cintura e começo a caminhar rumo à saída da antiga pensão, Fernan me olha
preocupado, mas ainda não se afasta de Carmin, todos continuam parados como se
não se importassem, com a minha ausência. Olho ao redor da rua, não há
carruagens, não há pessoas e por mais estranho que pareça meus pulmões ainda
estão pesados, mal consigo inspirar o pouco ar que resta na rua, era como se em
castigo roubassem meu oxigênio.
Insisto
em sair dali, buscar além daqueles muros velhos cobertos de musgo esperança
para prosseguir, atravesso a rua, o ar começa a circular, sinto o vento
esvoaçando meus cabelos, era como se a pensão permanecesse dentro de um aquário
invisível. Continuo caminhando, preocupada se Becker viria a minha procura, ele
é mais forte e mais esperto que eu, me parece que vive com esse peso há mais
tempo.
“Ah... Rick...
Quem me tirou a chance de repousar eternamente em seus braços na terra do
outono, pagara caro por isso... Vingarei seu sangue, e minha loucura...”.
[10] Vampiro que se alimenta de outro vampiro “canibalismo”, em busca de ostentar sua obsessão por poder.
[11] Local onde se reúnem os vampiros anciãos, os quais coordenam a cede de Alestan “Vampiros ocultos”, que vivem pela noite e não alimentam lendas a seu respeito por entre os humanos, alimentando-se sem serem notados.
[12] Vampiros Anarquistas que abominam leis, tudo o que os movem é a sede de sangue que destruiu seu raciocínio.
[13] Individuo sob domínio mental de um vampiro.
[14] Clã, ou grupo de pessoas das quais as almas foram tocadas pela gloria celeste, tendo assim dons e habilidades desconhecidas. Termo pejorativo de Bruxa.
Creio que as coisas ficaram
difíceis entre os tais Druniff´s e meus amigos demônios, pois nem se importaram
com a minha ausência, me sinto como uma cortesã usada para apenas o
entretenimento deles naquele banho de sangue. Os olhos de Fernan, aqueles
profundos olhos que rasgavam minha alma, me pareciam sinceros, mas estavam
apenas cobertos de mentira, Carmim... Quem seria... Carmim? Não me importa!
Apenas desejo meu querido Rick, não importa quantos homens possam aparecer em
meu caminho, jamais me esquecerei de meu amado.
- Posso senti-lo pulsando em meu sangue, enquanto eu estiver viva,
nosso amor vivera e ainda nos encontraremos por trás do véu de Isis[15].
De fato não os busquei, eles me
encontraram como um errante, a frieza nos homens é tão farta como nesses seres
de natureza oculta, afinal das contas não posso confiar em ninguém devo
prosseguir meu caminho, seja ele qual for.
Observo as folhas das árvores
secas caindo sobre a calçada, enfeitando-a como se envolvesse um corpo com seu
manto mortuário, como se quisesse esconder as rachaduras e cicatrizes do chão
por onde caminho. A arte da natureza em nos alimentar os olhos de ilusão,
transformando o desagradável em algo cativante, afagando nosso subconsciente a
ver algo saudável, quando na realidade já não há vida.
Ouço o badalar de sinos ecoando
em minha cabeça, atordoando-me, como se estivessem se debatendo junto ao meu
cérebro, com clareza afirmo que estou próxima a uma Capela, se bem me lembro
hoje é Quarta feira de Cinzas. Continuo caminhando quase que a enlouquecer com
aquele ruído infernal, quando me deparo com uma longa escadaria feita de pedras
negras. Caminho rumo a ela, quase que a perseguir o ruído, quando vejo ao longe
uma alta torre com uma cruz...
“Finalmente irei despedaçar esse sino, nem que seja a ultima coisa que
eu faça...”
